Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo Compulsivo

ORIENTAÇÕES À EQUIPE ESCOLAR


OBSESSÕES, COMPULSÕES E TIQUES:

O QUE VOCÊ CONHECE A RESPEITO?


O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) pode roubar das crianças e dos adolescentes a alegria de aprender, de se divertir e de fazer amizades na escola. A equipe profissional da escola está em uma posição privilegiada para intervir e ajudar as crianças e os pais a lutar contra esta condição dilacerante.


O tratamento eficaz está disponível e o alívio é possível. A aprendizagem sobre o TOC é um importante passo em direção a estar preparado para lidar com os sintomas e os efeitos desta doença. TOC pode invadir a sala de aula e, quando isso acontecer, a equipe escolar deve saber como lidar com ele.


Apresentamos aqui algumas orientações sobre o tema.


O QUE É TOC?


TOC é um transtorno de ansiedade com uma base neurobiológica. Esta condição cerebral afeta o modo como as crianças, adolescentes e adultos pensam. Caracteriza-se por obsessões e compulsões que ocupam uma quantidade considerável de tempo do portador e interferem nas suas relações familiares e sociais. .

Obsessões involuntárias são pensamentos intrusivos, imagens ou impulsos que podem causar preocupação e temor insuportável. Para lidar com as obsessões, a pessoa que tem TOC tem de realizar atos mentais ou físicos chamados de compulsões.

Compulsões são rituais repetitivos que fazem os indivíduos com TOC se sentirem melhor quando realizá-las, mas o alívio é apenas temporário. Alguns portadores não se sentem ansiosos e outros nem sequer têm pensamentos obsessivos, mas sim um desejo incontrolável, um sentimento de ter que realizar rituais.

Atualmente, não há cura para o TOC sendo este uma condição crônica. No entanto, tal como crianças com asma, alergias ou diabetes que aprendem a gerir as suas condições, as crianças com TOC podem aprender a gerir as suas obsessões e compulsões com o tratamento certo - e de apoio educativo.


APRENDENDO A RECONHECER OS SINTOMAS DO TOC


Crianças, por vezes descrevem suas obsessões como "maus pensamentos" ou receios ou preocupações - e por vezes eles têm muita dificuldade de colocar em palavras o que está incomodando eles. Em alguns casos, as crianças apresentam sintomas de TOC num ambiente, mas não em outro - por exemplo, os sintomas aparecem, em casa, mas não na escola. Algumas crianças e adolescentes conseguem suprimir ou esconder seus sintomas, porque eles temem punição ou ridicularizarão em casa ou na escola. Em ainda outros casos de TOC, uma criança ou adolescente é incapaz de evitar ou resistir às compulsões que "desfazem" os maus pensamentos e os fazem se sentir melhor temporariamente. Crianças e adolescentes com o transtorno se apresentam com mais frequência sem a crítica a respeito dos sintomas, ao contrário dos adultos que percebem ser exageradas ou injustificáveis


Alguns sintomas:

  • Qualquer ritual diário de higiene, repetitivo e exagerado.

Lavar as mãos

Escovar dentes

Tomar banho

  • Repetição de ações.

Escrever a mesma palavra ou texto várias vezes

Ler a mesma revista, jornal ou livro.

  • Checagens compulsivas.

Tarefa escolar.

Arrumação de brinquedos.

  • Contagem

Contar as lâminas de uma persiana várias vezes.

Contar azulejos, pisos em ladrilhos

  • Simetria

Na arrumação de armários.

Na arrumação de brinquedos


Normalmente, essas “manias” obsessivas consomem muito tempo, gerando angústia e ansiedade tanto para a criança quanto para seus familiares



O QUE CAUSA O TOC


Não se sabe exatamente o que provoca TOC. Pesquisas têm apontado fatores neurobiológicos incluindo a predisposição genética e fatores psicológicos (aprendizagens errôneas e crenças distorcidas) como influenciadores do aparecimento e da manutenção dos sintomas. Algumas crianças e adolescentes podem, também apresentar sintomas do TOC resultantes de infecções por bactérias estreptococos.


Os pais muitas vezes se culpam, ou querem saber o que eles fizeram de "errado" para causar esse problema desolador. Mas a culpa não é dos pais. Os pensamentos repetitivos e os sentimentos desagradáveis do TOC podem ser devido a problemas na comunicação entre certas áreas cerebrais. Ainda não está claro qual seria a natureza destes problemas ou a causa, mas produtos químicos no cérebro (tais como a serotonina) podem estar envolvidos.



QUAL É O TRATAMENTO PARA O TOC?


Os tratamentos mais frequentemente utilizados para o TOC são a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e/ou medicamentos que inibem a recaptação de serotonina e que atuam para reduzir a ansiedade. Para algumas crianças e adolescentes, associar estas duas modalidades de intervenção pode ser a forma mais eficaz de tratamento. Qualquer curso de tratamento deve ser adaptado às necessidades do indivíduo e deverá ser decidido por profissionais especializados. .



RECONHECENDO O TOC NA ESCOLA


Ao observar os sintomas citados acima se deve procurar a orientação de profissionais qualificados, que trabalham com crianças, para fazer o diagnóstico, pois na maioria das vezes, a criança não tomará iniciativa de queixar-se dos sintomas obsessivos compulsivos. O profissional deverá recomendar psicoterapia acompanhada ou não de uso de medicamentos.

Embora TOC vezes ocorra tanto em casa como na escola, TOC pode se manifestar de forma diferente em um lugar do que no outro. Uma criança que executa rituais compulsivos em casa pode não apresentar sintomas na escola.

Como um exemplo, uma criança pode sentir um medo intenso de que alguém, possa invadir a sua casa e prejudicar alguém na família. A criança pode insistir em repetidamente verificar se as portas e janelas estão trancadas, ao deitar, ou pedir aos pais para verificar as fechaduras uma e outra vez. Mas na escola a criança pode não apresentar evidências deste comportamento obsessivo-compulsivo.

Isto pode tornar mais difícil para os educadores a reconhecer potenciais casos de TOC. Também pode definir o palco de conflito entre pais e escola onde as pessoas podem achar difícil acreditar ou compreender as dificuldades que estão ocorrendo em casa. É importante levar a fala dos pais em consideração quando descrevem as suas experiências em casa. Ou pode ocorrer o inverso: a criança pode experimentar sintomas na escola, mas eles não são observados em casa. Se os pais não vêem os sintomas em casa, eles podem ter dificuldades para entender os comportamentos observados no cenário escolar.

Em alguns casos, as crianças e adolescentes experienciam obsessões e realizam rituais na escola, mas as obsessões não podem ser observadas e os rituais podem estar ocultos. Por exemplo, uma criança pode pedir autorização para ir ao banheiro várias vezes quando elas estão realmente envolvidas em rituais de lavagem (lavar as mãos mais e mais). Não é sempre fácil de reconhecer os efeitos dessas viagens ao banheiro.



O EFEITO DO TOC NO DESEMPENHO ESCOLAR


Um estudante portador de TOC e que não está recendo tratamento pode vivenciar momentos difíceis na sala de aula ou para completar suas tarefas em classe ou em casa. O TOC pode provocar extrema ansiedade, que, às vezes, pode realmente sobrepujar o aluno. Crianças e adolescentes podem descrever o sentimento crescente de ansiedade como se fosse uma subida ou um vulcão prestes a entrar em ebulição - e o alívio só chega quando a pressão é liberada. Infelizmente, o alívio é normalmente um comportamento compulsivo que pode ser extremamente perturbador para a aprendizagem do aluno e, possivelmente, para a sala de aula.


Quando um aluno tem TOC ele é incapaz de aprender da mesma forma típica que uma criança ou jovem adulto faz. A mente de um estudante que tem TOC pode ser centrada sobre a sua obsessão em vez de a tarefa em questão (na escola ou em casa). O TOC pode impactar negativamente o desempenho do aluno por causa de conflitos que podem estar ocorrendo. Por um lado, querem ser como os demais estudantes - capazes de prestar atenção na aula, participar em debates ou apresentações e estudar ou fazer tarefas escolares.


Por outro lado, sentem-se compelidos a responder às obsessões causadas pela TOC, e uma quantidade enorme de sua energia e foco é ocupado pelo TOC. Seus cérebros ficam recebendo mensagens que os instigam para realizar as compulsões. Quando o professor está falando, o aluno com TOC pode mal ouvir o que está sendo dito por causa dos pensamentos de medo e dúvidas intrusivas em sua mente.



O QUE É A SÍNDROME DE TOURETTE


A Síndrome de Tourette (ST) é um distúrbio neurológico ou "neuro-químico" que se caracteriza por tiques - movimentos abruptos, rápidos e involuntários - ou por vocalizações que ocorrem repetidamente com o mesmo padrão.


A maioria dos portadores consegue um limitado controle sobre seus sintomas. Porém se sabe que este limitado controle, que se consegue exercer durante alguns segundos ou até horas, se faz à custa de um adiamento que resulta por fim em uma salva muito intensa dos tiques que estavam sendo inibidos. Os tiques são vivenciados como algo irresistível (como por exemplo, a necessidade de espirrar) e que precisa por fim se manifestar. As pessoas com ST muitas vezes procuram um local escondido para dar vazão a seus tiques após tê-los inibido a duras penas na escola ou no trabalho. É típico dos tiques serem exacerbados (porém não causados) por estresse e diminuírem com o relaxamento ou com a concentração em uma tarefa aprazível. Os indivíduos lutam não só contra a doença em si mesma, mas também contra o estigma social de que são vítimas.



APRENDENDO A RECONHECER OS SINTOMAS DA ST


Há duas categorias de tiques na ST e eis alguns exemplos:

Simples:
Motores - Piscar os olhos, repuxar a cabeça, encolher os ombros, fazer caretas;
Vocais - Pigarrear, limpar a garganta, grunhir, estalidos com a língua, fungar e outros ruídos.

Complexos:

Motores - Pular, tocar pessoas ou coisas, cheirar, retorcer-se e, embora muito raramente, atos de auto-agressão, tais como machucar-se ou morder a si próprio;
Vocais - Pronunciar palavras ou frases comuns, porém fora do contexto, ecolalia (repetição de um som, palavra ou frase de há pouco escutados) e, em raros casos, coprolalia (dizer palavras ou expressões socialmente inaceitáveis; podem ser insultos, palavras de baixo calão ou obscenidades).




O QUE CAUSA A ST?


A causa não foi ainda definitivamente encontrada, mas as pesquisas atuais mostram forte evidência de que o problema se origina de anomalias metabólicas de pelo menos um neurotransmissor cerebral chamado dopamina. Provavelmente outros neurotransmissores, tais como serotonina também estão implicados em sua gênese. Há estudos genéticos mostrando que os distúrbios de tiques são herdados. O indivíduo portador de ST tem uma chance de cerca de 50 por cento de transmitir seu gen ou genes à sua prole. Ainda não existe cura, mas a remissão dos sintomas pode ocorrer a qualquer instante. Os dados atualmente disponíveis sugerem que os tiques tendem a estabilizar-se e a ficar menos intensos na idade adulta.


QUAL O TRATAMENTO PARA A ST?


Atualmente, existem medicações eficazes que auxiliam no controle dos sintomas quando estes prejudicam a vida do paciente. Estudos recentes apontam a utilidade de novos medicamentos eficazes no manejo do componente impulsivo. A dose necessária para se obter o melhor controle possível é individual e varia para cada paciente e precisa, portanto, ser meticulosamente monitorizada pelo médico. Por vezes psicoterapia pode ajudar na redução dos sintomas e auxiliar sua família a lidar com os problemas psicossociais que acompanham a ST. Algumas técnicas cognitivo-comportamentais podem facilitar a substituição por um tique mais aceitável. O uso de técnicas de relaxamento podem ser úteis durante períodos prolongados de estresse intenso.


A ST NO AMBIENTE ESCOLAR


Os alunos com ST têm diferentes necessidades educacionais. Eles têm QI igual ao das outras crianças e a maioria deles tem bom desempenho acadêmico numa classe normal para sua idade. Algumas crianças poderão necessitar de um apoio educacional especial. Alguns alunos que possuem certos transtornos de aprendizado que, combinados com o transtorno de déficit de atenção e com as dificuldades inerentes de ter de lidar com tiques freqüentes, podem requisitar uma atenção pedagógica mais intensa. Algumas crianças podem requerer supervisão individual em uma sala de estudos, por exemplo. Ou ainda exames orais quando os sintomas da criança interferem em sua capacidade de escrever. Provas e exames, por exemplo, sem limite de tempo (particularmente úteis quando as salvas de tiques atrapalham a adequação ao tempo limite para responder às perguntas), provas em aposento à parte (quando os tiques vocais estiverem intensos e atrapalhando o curso da prova) ou permissão para sair da sala para aliviar-se da salva de tiques. Todas estas medidas pedagógicas são simples de se executar e resolvem muitas dificuldades práticas. Todos os estudantes com síndrome de Tourette precisam de um ambiente compreensivo e tolerante, que os encoraje a trabalhar para atingirem todo seu potencial e que seja flexível o bastante para atender suas necessidades específicas.



O EFEITO DO TOC E DA ST EM INTERAÇÕES SOCIAIS


Não só o TOC pode afetar negativamente o desempenho acadêmico, mas também pode ter efeitos devastadores para uma pessoa em sua capacidade de interagir adequadamente com os outros. Como resultado, as oportunidades de amizades e diversão podem ser perdidas e a auto-estima pode ser negativamente afetada. A juventude é um momento crítico para o desenvolvimento de habilidades sociais e de relacionamentos e o TOC pode ser um bloqueio de importantes progressos no desenvolvimento afetivo e social.


Em alguns casos, o aluno pode não apresentar sintomas na escola, em casa, mas ele ou ela é importunado com preocupações e pensamentos intrusivos, que podem inviabilizar atividades normais, como estudar ou completar tarefas de casa, brincar com outras crianças e ter um equilíbrio de relacionamento com amigos e familiares.


As crianças devem ser encorajadas a controlar os comportamentos socialmente inaceitáveis sempre que possível e a tentar substituir as condutas inaceitáveis por outras socialmente aceitáveis. 

Por estas razões, é importante que toda a equipe escolar veja o TOC e a ST como algo sério e faça um trabalho com o aluno e seus colegas para prestar apoio à criança e à sua família.



O PAPEL DA ESCOLA NO TRATAMENTO DO TOC E DA ST


Educadores podem desempenhar um papel importante em ajudar a um aluno, que está lidando com o TOC ou com a ST, a ter sucesso. A partir de observações iniciais de que algo está errado com o comportamento de uma criança ou adolescente, prestar apoio enquanto o aluno se esforça para controlar as suas obsessões e compulsões.


Se o TOC ou a ST aparecer na escola é muito importante que a equipe escolar seja capaz de lidar com a criança portadora tal como faria com uma criança que sofra de qualquer outra doença. Mesmo que o TOC ou que a ST não esteja funcionalmente prejudicando no cenário escolar, saber que o professor está ao seu lado ou que o ambiente escolar é livre de estigma pode fazer uma diferença positiva e real para o portador e sua família.


O primeiro passo para ajudar um aluno portador é reconhecer que o transtorno pode estar presente. A equipe escolar não pode esperar que os pais ou o aluno comunique o seu problema. Em muitos casos, um professor ou psicólogo escolar reconhece que uma criança está apresentando dificuldades e deve tomar providências. É importante que a equipe escolar tenha uma compreensão sobre esses transtornos, a fim de formular um plano para ajudar o aluno. Quando os educadores têm conhecimentos sobre o tema, eles conseguem reconhecer os sintomas precoces e definir um plano de ação para ajudar. Sem conhecer sobre os sintomas, os educadores estão mal equipados para gerenciar o aluno ou a sala de aula, quando o transtorno estiver presente.


Pelo motivo das crianças e os adolescentes passarem muitas horas do dia na escola, é extremamente importante que os professores compreendam os transtornos e seus possíveis efeitos na sala de aula. O tempo que os alunos passam na escola é um momento de aprendizagem e de interação social com os colegas e este período pode ser tanto uma oportunidade como um obstáculo óbvio. O modo como os professores gerenciam a situação pode fazer toda a diferença e pode dar a um aluno que tem TOC ou ST uma chance de lutar pelo sucesso acadêmico e social.



COMO A ASTOC PODE AJUDAR OS PORTADORES DO TOC E DA ST, SEUS FAMILIARES E EDUCADORES?


Em maio de 1996, foi criada a Associação de Pacientes com Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (ASTOC) na cidade de São Paulo com o objetivo de apoiar os portadores do TOC e da ST e seus familiares. Esta entidade fornece informações sobre o TOC e a ST, as opções de tratamento, links para profissionais da saúde mental que tratam desses transtornos. Outra área em que a ASTOC atua é no campo de orientar professores e educadores, além de proteger os interesses dos alunos portadores destas síndromes. Os encontros promovidos pela ASTOC permitem a troca de idéias e sentimentos sobre os problemas comuns aos pacientes e familiares.



Rosana Mastrorosa.

Psicóloga Clínica (CRP-06/93664) com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental. Membro do C-TOC (Consórcio Brasileiro de Pesquisa em Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo) e colaboradora do ambulatório de TOC da UNIFESP. Orientadora de grupos de apoio da Associação de Portadores de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo Compulsivo (ASTOC). Mestranda em Psiquiatria e Psicologia Médica na UNIFESP.